O primeiro título da selecção de júniores foi há 50 anos

Publicado em


Há génios, em talento e feitio, que não sabem parar. Como José Maria Pedroto. Futebolista de créditos firmados em Portugal, primeiro pelo Belenenses, onde chega à selecção, depois pelo FC Porto, onde ganha dois títulos de campeão e mais duas Taças de Portugal em oito épocas, o médio diz adeus aos relvados, não necessariamente ao futebol. Pedroto tem 31 anos em 1960 quando decide iniciar um curso de treinador promovido pela federação francesa de futebol. No fim das aulas, é considerado o melhor estrangeiro, com nota máxima. Com o diploma na mão, Pedroto embarca na aventura que só terminará em 1984. O seu primeiro trabalho é a selecção nacional de juniores, apurada para a fase final da 7.a edição do Campeonato Europeu, a decorrer em Portugal.

Inicialmente há 16 equipas envolvidas. Escrevemos inicialmente, porque três (Jugoslávia, RDA e Hungria) desistem de vir a Portugal. Daí que o torneio esteja coxo, com apenas 13 selecções, divididas em quatro grupos. O sorteio da UEFA dita Portugal no grupo A, com Itália, Inglaterra e… Jugoslávia. O treinador de campo, José Maria Pedroto, chefiado pelo seleccionador David Sequerra, jornalista do “Mundo Desportivo”, um dos três jornais desportivos portugueses de então, juntamente com “A Bola” e “Record”, convoca 22 jogadores: Rui (FC Porto), Melo (Benfica), Viegas (Académica) como guarda- -redes; Amândio (Benfica), Nogueira (Benfica), Valdemar (FC Porto) e Tito (Leões Santarém) como defesas; Faria (FC Porto), Calhau (Sanjoanense), Carriço (V. Setúbal), Moreira (Leixões), Manuel Rodrigues (Barreirense) e Oliveira Duarte (Sporting) como médios; Crispim, Rebelo, Nunes (todos da Académica), Jorge Lopes (Benfica), José António e Mira (ambos do Barreirense), Serafim (FC Porto), Peres (Belenenses) e Simões (Benfica). E foi precisamente a este último que o i telefonou. Por ter marcado o primeiro golo desta campanha e por ter sido aquele que mais longe foi na carreira, como jogador de equipa (bicampeão europeu pelo Benfica) e de selecção (pertence aos Magriços-66). E não é que acertámos na mouche? Porque Simões é mais, muito mais que isso. Ele conta-nos na primeira pessoa, sem tabus.

“O nosso estágio foi ali para os lados de Carcavelos, está a ver? Um dia, naquelas brincadeiras de adolescentes, trancaram–me na varanda. Além desse problema, havia outro: eu estava nu, completamente nu. E eles [companheiros de Simões], do lado do quarto, a gozarem com a minha figura. Então eu empurrei a janela e parti-a. Rasguei parcialmente três dedos da mão direita e joguei todo o Europeu com uma ligadura enorme, o que dificultava imenso as quedas no relvado, provocadas por faltas ou escorregadelas. A sorte é que quando se é jovem, a capacidade de reacção é maior e esquiva-se mais facilmente aos perigos. Ainda hoje tenho a marca dessas lesões na mão direita. E ainda hoje tenho presente a descompostura do Pedroto. Foi cá um raspanete! Todos ouviram, incluindo eu, a vítima.”

30 DE MARÇO DE 1961 A estreia aconteceu há exactos 50 anos, a 30 de Março de 1961, no Estádio das Antas, com a Itália. Com arbitragem do holandês Roomer, a equipa nacional alinhou com Rui; Amândio e Nogueira; Carriço, Manuel Rodrigues e Oliveira Duarte; Crispim (cap.), Nunes, Jorge Lopes, Serafim e Simões. E não se saiu do 0-0.

2 DE ABRIL DE 1961 Em Alvalade, a selecção destroça a Inglaterra por 4-0, sob a arbitragem do alemão Tschenscher. Aqui, Pedroto faz duas alterações em relação ao jogo anterior, com as saídas de Manuel Rodrigues e Jorge Lopes para as entradas de Manuel Moreira e Peres. Este último puxa Simões para interior-esquerdo e é este quem marca o 1-0. “Acho que foi um remate com o pé esquerdo, de fora da área, muito parecido com aquele que marquei ao Real Madrid em 1965, nos 5-1 na Luz.” Segue-se Nunes. E depois o bis de Serafim. A qualificação para as meias- -finais como vencedor do grupo só será carimbada se a Itália não ganhar por mais de quatro à Inglaterra, o que efectivamente não acontece (3-2).

6 DE ABRIL DE 1961 Nas meias-finais, o inglês Aston apita o duelo ibérico com Espanha, em Alvalade (no Euro-2004, as duas selecções voltariam a encontrar-se na casa do Sporting). O treinador Pedroto faz regressar Jorge Lopes, para o lugar de Nunes. O teste é ultrapassado com distinção, com um 4-1 sem apelo nem agravo. O capitão dá o exemplo e marca. Crispim, 1-0. Depois, o alferes Serafim segue-lhe os passos. Uma, duas, três vezes. Já tem cinco golos. Haverá mais de onde veio?

8 DE ABRIL DE 1961 Estádio da Luz, palco da decisão. Pela única vez no torneio, Pedroto não mexe no onze. Está bem assim. E está mesmo: 4-0 à Polónia. Com quatro golos de Serafim, dois em cada parte (9”, 27”, 49” e 78”). É a primeira grande conquista de Portugal nas selecções. Antes até do Benfica campeão europeu (31 de Maio de 1961). Parabéns a todos. É a festa do futebol português, que no ano anterior já ameaçara ganhar o título, mas perdeu a meia–final (1-2 com Hungria) e ficou–se pelo terceiro lugar (2-1 à Áustria). Adivinhe com quem em campo?

Simões, esse mesmo. “Nesse Europeu na Áustria, estreei-me com a Grécia, ainda na fase de grupos, e até marquei um golo. Um ano depois, ganhámos e levantámos a taça. Foi uma alegria imensa, até porque esse trabalho teve continuidade para muitos jogadores dessa geração, com presenças na selecção, como Peres, Oliveira Duarte, Serafim e até o próprio Pedroto…” E agora, meio século depois? “Boa pergunta. Deixe-me lá pensar. Há uns meses, encontrei–me com o David Sequerra [seleccionador nacional em 1961, o tal que chefiava Pedroto] quando o nosso grande Artur Agostinho foi agraciado por Cavaco Silva com a Comenda da Ordem Militar de Sant”Iago da Espada. Ele disse-me que estava a esforçar-se por juntar todos os integrantes dessa memorável campanha e fazer uma festa, com o apoio da federação. Vou esperar por isso. É mais fácil aprendermos todos a falar chinês do que haver essa homenagem. Aliás, já não fico surpreendido se a China comprar Portugal, mas ficaria com uma homenagem aos jogadores de 1961. Nessa altura, o melhor do futebol eram os jogadores. Agora, a melhor coisa do futebol é a bola. Porta-se sempre bem. Tem carácter, personalidade, velocidade…”

À federação, fica aqui o aviso de um dos heróis de 1961. Há 50 anos, Portugal ganhou o seu primeiro título. Que também foi a estreia vencedora de um treinador especial. À selecção de juniores, seguem-se outros trabalhos meritórios no V. Setúbal, no Boavista, no V. Guimarães e no FC Porto. Aí, já não é só Pedroto. É o Zé do Boné.

Fonte: Jornal I
Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s