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Relato de uma visita da seleção brasileira a Portugal no tempo de Eusébio

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eusebioApós a morte de Eusébio da Silva Ferreira, andei a pesquisar algumas histórias sobre a sua época de ouro (anos 60), encontrei um livro escrito por um jornalista/treinador (!!!) brasileiro que num dos capítulos relata a vinda da seleçao brasileira a Portugal para jogar com a seleçao das quinas,… curioso o ponto de vista!

“O futebol brasileiro faz muitas excursões ao exterior, principalmente à Europa. Em algumas, com notáveis exibições, deixou saudades. Em outras, não fez notáveis exibições e não deixou saudades.
Europa desta vez. Fui para rádio e jornal e um ou outro VT de televisão, pois não havia transmissão direta. Ainda não tinham bolado os satélites de comunicação e não dava para transmitir jogos diretamente.
Então, a saída da seleção parecia mais a saída de um corpo expedicionário para a Segunda Frente. Não, Segunda Frente já tinha sido aberta na Segunda Guerra Mundial. Então poderia ser a Terceira.
O aeroporto do Galeão estava em polvorosa. Todas as organizações de rádio que iam viajar estavam lá com seus fios e microfones. E não eram somente as do Rio de Janeiro. As outras, as dos diferentes estados, não iriam deixar de cobrir a saída de uma seleção. Ainda mais que desta vez a viagem era das grandes.
Não sei se consigo contar a história daquela saída.
Os fios de microfone pareciam uma imensa macarronada. “Cuidado com meu fio!”, berrava um. O outro remendava: “Este fio é meu, vai te criar e não enche.” No meio disso o Caçapa, eficiente operador da Rádio Mundial, gritou: “Estou preso… me tirem daqui… posso morrer… aqui também tem fio de força da Light.” (A Light já tinha saído do Brasil na década de 40, mas Caçapa queria era socorro urgente.)

O alto-falante tentava gritar sua mensagem: “Senhores… senhores! Tenham paciência… nosso vôo nº 700 para
Lisboa já está chamando há meia hora. Senhores passageiros, dirijam-se urgente para o embarque no portão 7… por favor… Senhores membros da delegação de futebol… nosso avião…”
Mas não adiantou. muito. Não valeu muito o “último aviso” . Ainda tiveram de dar mais uns oito “último aviso”. E quando um dos rapazes da Companhia Aérea tentava tirar um dos jogadores do meio de um bolo de microfones um dos repórteres gritou: “Estão impedindo nossa missão de bem informar. Isto é uma censura…uma
ditadura… uma arbitrariedade. Estamos aqui há várias horas… nao pode… é…
Até que apareceu alguém da delegação e foi tirando os jogadores das entrevistas. Mas veio a réplica: “Este cara não joga nada… não passa de um carona~.. e carona que recebe para viajar… este cara viaja à custa do contribuinte brasileiro!” Mas o cara era enérgico, o avião já estava atrasado uma hora, os outros passageiros reclamavam e uma mãe gritava quase em desespero:
“Isto é falta de respeito… aqui tem senhoras e crianças… aqui…” Não adiantava.
Uma “rádio” entrara no avião e lá de dentro o repórter gritava: “A única emissora que entrou no avião da Seleção…” Um passageiro que já estava cheio de esperar corrigiu: “Ué, e eu que pensava que este avião era da Varig…” O repórter ficou fera
e disse, sem se lembrar que estava de microfone aberto: “Ora, não enche e vai tomar banho, seu engraçadinho! Vai ver a mamãe em Portugal?”

Lá em Lisboa, o aeroporto Portella de Sacavém fica bem ao lado do mar. Bonito lugar, e os portugueses são encantadores. Mas um deles, quando a pista acaba e onde tem um murinho, escreveu “Fim da Pista”. Bom, se o aviador não parar a aeronave, o bicho
vai para dentro d’água. E se o aviador for inglês ou sueco? Como é que fica? Todo molhado?
Fizemos fotografar a inscrição e também uma plaquinha que existia na avenida da Liberdade, bem perto do monumento ao marquês de Pombal. Lá estava, em letras brancas sobre a plaquinha preta de uns vinte centímetros de altura sobre cinqüenta de largura: “É proibido pisar na grama. Quem não souber ler pergunte ao guarda.” E agora? Mandei as fotos para o Samuel Wainer no Última Hora, que publicou.
Tiraram a placa imediatamente. Mas a inscrição do aeroporto ainda ficou.
Os portugueses sempre nos recebem com muito carinho, em todos os aspectos.
O primeiro jogo daquela seleção foi na cidade do Porto. Nosso time era bem fracote. Um a zero para eles e eu achei bom negócio. Os portugueses estavam no campo com Eusébio, Coluna, Vicente, Costa Pereira, Germano, Simões, todos africanos de Lourenço Marques e Angola. Um timaço que mais adiante foi terceiro
na Copa da Inglaterra. E se a Copa não fosse na Inglaterra duvido um pouco que aquele time tivesse perdido para os ingleses na semifinal, apesar dos ingleses terem formado na época uma grande seleção.
Mas o caso é que enquanto nosso time era formado à base de muitos
preconceitos, o deles era apenas à base de grandes jogadores. Aquele time e o do Benfica, que era sua quase totalidade, foram das melhores coisas que o futebol já produziu.
Nós estávamos cheios de concepções incrivelmente falsas, mas que
prevaleceram por algum tempo. A do racismo foi muito séria, principalmente num país como o nosso, onde negros e mestiços constituem maioria.
Pois há ou havia na CBD um relatório que teve origem numa excursão bem ruinzinha da seleção brasileira à Europa em 1956. Lá estava bem escrito que “os jogadores de raça negra perdem sua maior potência em competições mundiais importantes” . E davam alguns “fatos” como a participação de Bigode, Juvenal e
Barbosa na-final de 1950.

Mas o time da seleção portuguesa não tinha nada com isso e lá não havia preconceito na formação da seleção. O mulato Oto Glória foi durante anos o laureado treinador.
Então eles nos meteram um a zero no estádio das Antas, no Porto. O jogo foi “abafado ao alho”, realizado durante os festejos de São João. E os portugueses fazem a festa dando porradas na cabeça de quem estiver sem chapéu com um bom dente de alho-poró. Levei duas ou três e voltei ao hotel para me cobrir. O Jorge Cúri
rpe perguntou: “Ué, já estás de volta? É a festa de São João!?” Fiquei na moita sobre a “festa”, mas disse: “Depois da esquina é que é o quente.” Alguém que também estava voltando, ao ver a careca do Cúri, uma bola de bilhar e bem limpinha,
reforçou: “É, é ali mesmo… ali que é o bom da festa.”
Jorge chegou na esquina com aquela linda cabeça e os gajos caíram-lhe em cima. Diziam, entusiasmados: “Ai, que rica carequinha…” E tome porrada com o alho. O Cúri não esquentou, voltou para o hotel, botou um gorro de lã e entrou na
festa. No dia seguinte, aquela rua e as vizinhas estavam cobertas de alho. Ali pelo meio dia estavam limpas. Mas o cheiro ficou.
Íamos saindo do estádio, com o um a zero no “coco” , quando chegaram dois brasileiros em um carro que vinha veloz. Frearam de repente e dele saltaram os dois passageiros, perguntando ansiosos pelo resultado. Respondemos: um a zero para eles! Os dois aumentaram seu ar de desapontamento e confessaram: “Olha, saímos
do Brasil ontem à noite. Atrasou tudo e chegamos em Lisboa um pouco tarde.
Fretamos um avião, alugamos um carro e mandamos brasa… mas não deu tempo e só agora…” Pombas, gastar uma nota daquelas de avião, fretar outro avião; alugar um carro no aeroporto e chegar depois do jogo!? Era dose.
Mas o Antônio Carlos de AImeida Braga, que era um deles, pediu encarecidamente:
“Não digam nada… não digam que chegamos atrasados… não espalhem… estávamos batendo um papo ontem lá em casa, no Rio, quando resolvemos ver o jogo… puxa, não deu jeito.” O outro era o jornalista Armando Nogueira, que implorou: “Não digam nada, se não vão nos gozar até o Juízo Final.”
Todos prometeram não mandar nada a respeito. Mas com a derrota… e a falta de notícias… acho que nem todos cumpriram o prometido.
Logo depois do jogo voltei para o hotel. Tive sorte e nem bem saía do estádio das Antas apareceu o Pimenta num carro muito bonito e me deu carona. No caminho ele disse: “Aluguei isto. Eú queria um Mercedes, mas eles não tinham.”
E fomos falnando pelas ruas do Porto. Mal chegamos ao hotel, uma senhora chegou-se e me reconheceu: “Conheço-o da televisão, quando lá estive no Rio de Janeiro.” E despencou uma saraivada de palavras e de críticas ao nosso time. Achava que fizemos. péssima partida. Eu tentei dizer-lhe que a seleção portuguesa era muito
boa, mas não pude nem respirar. A dona falava como metralhadora e me abafou. E ia dizendo: “O sr. Feola que me perdoe, deveria ter mandado marcar os dois principais jogadores nossos, o Eusébio e o Coluna. Foi um erro… foi um erro.” “Mas minha senhora…”, tentei argumentar. “Não, não e não, cavalheiro. Isto foi um tre-
mendo erro tático…” Concordei e ia dizendo: “É isso, mas…” “Não, não é isto coisa alguma”, dizia ela, entrando de sola. E desceu a ripa no nosso time, do goleiro ao ponta-esquerda.

Continuava falando sem parar quando chegou o resto da turma, em um ônibus especial. Iam entrando no saguão e sentando nas confortáveis poltronas. Ninguém conseguia dar um pio. A Dona Frances de Vasconcelos era só quem falava.
Então, um dos colegas da imprensa brasileira perguntou: “Mas quem é ela, que entende tanto de futebol?” Aí respondi: “Meus amigos, apresento-Ihes a Portuguesa de Desportos…” Não sei se ela gostou muito. Afinal, sabia tudo de futebol.”

Tútulo do Livro: Futebol e Outras Histórias
Autor: João Saldanha
Ano publicação: 1988País: Brasil

Curiosidades sobre o autor:
João Alves Jobin Saldanha (1917-1990) foi jornalista e treinador de futebol. Ele levou a seleção brasileira a classificar-se para a Copa do Mundo de 1970.
(O Presidente da CBD – Confederação Brasileira de Desportos, João Havelange alegou que o contratou na esperança de que os jornalistas fizessem menos críticas à seleção nacional, tendo um deles como técnico.)

Manual Técnico do Guarda-Redes de Futebol

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Dado que se publica por cá muito pouco sobre, o tema guarda-redes,  temos que recorrer ao mercado espanhol para nos actualizarmos. Achamos que vale a pena.

Sinopse:
Este livro estabelece um padrão de condutas técnicas para serem aplicadas no desenvolvimento dos conteúdos do treino de guarda-redes. Cada parte do livro é dedicada a um dos fundamentos técnicos do guarda-redes, esmiuçando e detalhando ao máximo as características de cada gesto ou acção: Fundamentos técnicos específicos defensivos prévios, fundamentos de recuperação de bola, fundamentos técnicos específicos defensivos sem recuperação de bola, fundamentos técnicos específicos ofensivos e fundamentos técnicos não específicos. Além disso, ainda acrescenta uma sequência fotográfica de cada um deles, acompanhada por uma análise técnica da sua execução.

Pode ser adquirido por cá em: wook.pt ou omniservicos.pt

Futebol – A Competição Começa na Rua

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“Inovadora, actualizada e de uma visão global fascinante, assim nos é apresentada esta obra que o autor transforma num livro de referência no panorama do desenvolvimento do futebol português” começa assim o Prefácio da autoria de Rui Caçador.

Este livro cruza a formação do praticante desde o início até ao topo da sua carreira desportiva, baseando muito das concepções de treino nos processos específicos do futebol e na vivência de situações próprias da modalidade.
Procura estabelecer um traço de união entre o futebol na sua vertente mais simples, e o futebol já analisado de uma forma mais científica. Um livro obrigatório para todos os verdadeiros amantes do Desporto Rei e não só!

O Prof. Silveira Ramos fez parte dos quadros da federação de Futebol na Área de formação, (foi ele o primeiro a convocar Cristiano Ronaldo para representar Portugal, por exemplo), actualmente lecciona na Faculdade Motricidade Humana (uma referência da área em Portugal), esteve ligado a vários clubes profissionais na área de futebol.

Aconselho a leitura.

As 3 qualidades para ser treinador de sucesso

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Esses três técnicos (Pedroto, Mourinho e Jesus) são os maiores que conheci porque:

sabem ser líderes,

têm uma leitura correcta do jogo e

sabem motivar os jogadores.

Pode ter-se um vasto conhecimento da técnica e táctica mas, se não se tiver estas três qualidades, não se é bom treinador de futebol», resumiu Manuel Sérgio na apresentação do seu livro “Filosofia no futebol”.